Juros futuros recuam após ajuste fiscal e alívio externo
A curva de juros futuros encerrou o pregão com redução dos prêmios em todos os vencimentos, depois de ter sido pressionada inicialmente pelo anúncio de reajuste de 15% no Bolsa Família, que elevou as preocupações fiscais dos agentes de mercado.
O contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027, de curtíssimo prazo, fechou em 13,555%, recuando 3 pontos‑base em relação ao fechamento anterior de 13,588%. Já o DI para janeiro de 2029, de médio prazo, terminou em 13,82%, avançando mais de 8 pontos‑base frente aos 13,903% anteriores. O DI de longo prazo para janeiro de 2031 subiu 10 pontos‑base, encerrando o dia em 14,04% contra 14,116% na última quarta‑feira (16).
Nos Estados Unidos, o yield do Treasury de dois anos, mais sensível à política monetária, operava a 4,67% por volta das 18h05 (horário de Brasília), ligeiramente abaixo dos 4,69% registrados no ajuste anterior. O retorno do título de 10 anos, referência para financiamentos imobiliários, veículos e dívidas de cartão de crédito, recuou para 4,939%, de 4,947% da última quarta‑feira, no mesmo horário.
Segundo agentes, parte do mercado aproveitou a notícia do benefício para “potencializar” o avanço dos DIs, adotando posições táticas que apostavam em alta para capturar um eventual prêmio maior derivado do leilão robusto de títulos prefixados do Tesouro Nacional, efeito que foi se dissipando ao longo da tarde.
O reajuste de 15% no piso do Bolsa Família, que passou de R$600 para R$691, foi divulgado pelo governo federal pouco depois das 10h30, quando as mesas de renda fixa já sabiam que o Tesouro ofertaria 15 milhões de Letras do Tesouro Nacional (LTN) e 9 milhões de Notas do Tesouro Nacional – Série F (NTN‑F). Antes do início do leilão, os DIs futuros foram “forçados” a subir mais do que normalmente ocorreria antes de leilões pesados, levando a autoridade fiscal a emitir os títulos com prêmios maiores.
A combinação da grande emissão do Tesouro, o aumento do benefício – interpretado como medida eleitoreira com relevante impacto fiscal – e a descompressão trazida pelo exterior direcionaram os negócios, sobretudo após o comunicado do Comitê de Política Monetária (Copom) de quarta‑feira ser considerado neutro e a decisão de reduzir a Selic em 0,25 ponto percentual já estar precificada.
“Alguns tomam DI para se proteger do leilão. E aí, se alguém compra a maioria da emissão, esses players que fizeram o hedge precisam desfazê‑lo, e o mercado alivia”, explicou Eduardo Cohn, gestor de portfólio da Heritage Capital.
Um trader que preferiu permanecer anônimo afirmou à Broadcast que o mercado aproveitou o “infeliz anúncio” do reajuste do Bolsa Família para reagir negativamente, acrescentando que os lotes do leilão já eram conhecidos e, portanto, o mercado buscou “potencializar” o movimento.
Os ativos domésticos registraram piora generalizada após a concessão do benefício, que entrou em vigor a partir de outubro por decreto. Nos cálculos do Ministério da Fazenda, o impacto nas contas públicas será de R$22,7 bilhões por ano para 2027 e 2028, e de R$5,8 bilhões para 2026.
Otávio Aidar, gestor de portfólio da Ujay Capital, destacou a dificuldade de separar a influência do leilão de prefixados da do Bolsa Família na pressão observada nos DIs até o início da tarde. O alívio na segunda parte do pregão, segundo ele, pode ter ocorrido porque havia agentes “querendo ficar aplicados”, aproveitando as taxas maiores. Aidar ainda considerou coerente apostar na queda das taxas futuras, visto que o comunicado neutro do Copom deixou aberta a possibilidade de novos cortes, embora o texto não tenha cravado uma pausa no ciclo de calibração.
No cenário internacional, apesar da alta de 0,25 ponto percentual nos juros promovida pelo Federal Reserve e da expectativa de novo aperto em 2026, os retornos dos Treasuries recuaram em sintonia com o dólar, reduzindo os temores de um choque energético mais severo. O barril Brent para entrega em novembro, referência para a Petrobras, fechou a US$104,82, queda de 0,95%, sustentado por sinais de avanços diplomáticos no Oriente Médio.
Não é a primeira vez que observamos queda nas taxas do Tesouro Direto após expectativa de corte da Selic, como apontado em nossa análise de 17/09, reforçando a sensibilidade da curva de juros a fatores internos e externos.
Com informacoes de Money Times.

