ALMA captura rastro gravitacional de planeta recém‑nascido em WISPIT 2
Novas observações com resolução de 2,5 unidades astronômicas revelam um anel de poeira escondido entre dois planetas gigantes e um excesso de gás que ocupa toda a esfera de Hill de WISPIT 2b, o primeiro planeta fotografado diretamente com assinatura cinemática confirmada.
Há uma estrela a 435 anos‑luz da Terra, na direção da constelação da Águia, com pouco mais de 5 milhões de anos de idade, uma infância tão precoce que o Sol, nessa fase, ainda nem tinha terminado de reunir sua família de planetas. Em volta dela gira um disco de gás e poeira, e dentro desse disco dois mundos gigantes estão sendo montados neste exato momento, um deles engolindo matéria a olhos vistos.
Agora, o maior conjunto de radiotelescópios do mundo apontou para esse sistema com uma nitidez equivalente a enxergar uma moeda de um real a uma distância comparável à que separa São Paulo do Rio de Janeiro. O que apareceu na imagem foi o rastro gravitacional de um planeta recém‑nascido impresso no gás ao seu redor, uma marca que nunca havia sido confirmada em um planeta que também pudesse ser fotografado diretamente.
A estrela se chama WISPIT 2, e o sistema que ela comanda virou, em pouco mais de um ano, um dos laboratórios mais disputados da astronomia. O trabalho que descreve as novas imagens foi publicado em 24 de setembro, na edição de 1º de outubro do periódico The Astrophysical Journal Letters, assinado por uma equipe liderada por Myriam Benisty, do Instituto Max Planck de Astronomia, em Heidelberg, com colegas da Universidade de Milão, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, da Universidade do Chile, da Universidade da Flórida, da Universidade de Zurique e da Universidade Monash, na Austrália.
As observações foram feitas com o ALMA, o Atacama Large Millimeter/submillimeter Array, instalado a 5 mil metros de altitude no deserto do Atacama, no Chile, e usaram a configuração mais estendida do observatório, com antenas separadas por até 15 quilômetros.
Para entender por que isso importa, convém começar pelo problema que a astronomia ainda não resolveu. Já conhecemos milhares de exoplanetas, quase todos orbitando estrelas adultas, com sistemas prontos há bilhões de anos. O que continua obscuro é a fase anterior: como um planeta gigante nasce, como interage com o disco de onde surge, como se alimenta, cresce e abre caminho no material que o cerca. Os discos protoplanetários oferecem a chance de assistir a esse processo em andamento, e um tipo em particular, os chamados transition disks, discos de transição, marcados por grandes cavidades centrais esvaziadas de poeira, é o suspeito natural de abrigar planetas em construção.
O ALMA e o Very Large Telescope, do Observatório Europeu do Sul, mostraram ao longo da última década que esses discos quase nunca são lisos. Eles exibem anéis concêntricos, lacunas escuras, braços espirais e assimetrias, estruturas que a teoria interpreta como a assinatura de corpos abrindo sulcos no gás e na poeira. O problema é que ver o planeta propriamente dito tem se mostrado uma tarefa frustrante. Campanhas extensas de busca produziram, na maior parte dos casos, nada além de limites superiores, e os poucos candidatos anunciados continuam em debate. Até 2025, apenas um sistema tinha protoplanetas confirmados e aceitos pela comunidade: PDS 70, com seus dois gigantes descobertos em 2018 e 2019. WISPIT 2 mudou essa contagem.
A estrela, catalogada como TYC 5709‑354‑1, tem massa próxima à do Sol, idade estimada em 5,1 milhões de anos, com margem que vai de 2,8 a 6,4 milhões, e fica a 133,35 parsecs de distância.
O planeta WISPIT 2b foi encontrado em 2025 pelo levantamento WISPIT, sigla em inglês para “planets of wide separation over time”, conduzido com o instrumento SPHERE do VLT, e apareceu exatamente onde a teoria mandava procurar: dentro de uma lacuna do disco, a uma separação de 57,3 unidades astronômicas da estrela, quase o dobro da distância entre o Sol e Netuno. Sua massa, estimada pela cor nas bandas H e Ks comparada com modelos evolutivos, é de 4,9 massas de Júpiter, com incerteza de cerca de uma massa de Júpiter para mais ou para menos.
Logo depois da descoberta, observações na linha H‑alfa do hidrogênio com o instrumento MagAO‑X, no telescópio Magalhães Clay, revelaram que WISPIT 2b não é um objeto inerte. Ele brilha nessa linha porque está acretando gás do disco a uma taxa estimada em 2 × 10⁻¹² massas solares por ano, o que parece pouco até ser convertido em unidades terrenas: são cerca de 126 milhões de toneladas por segundo caindo sobre o planeta. A acreção em H‑alfa é a prova mais direta de que um protoplaneta ainda está em obra, porque a luz nessa linha vem do choque do gás que despenca sobre ele, e não da atmosfera já formada. Foi em parte esse sinal que consolidou PDS 70b e PDS 70c como protoplanetas aceitos sem controvérsia.
A segunda companheira, WISPIT 2c, demorou mais para se confirmar. Ela havia sido proposta como candidata a partir de detecções marginais nas bandas L’ e z, sem nenhum t
Com informacoes de Space Today.

