Risco de colapso da barragem de garimpo em Bom Futuro ameaça bacia do Rio Madeira
Descoberto no final da década de 1980, o garimpo Bom Futuro impulsionou a última grande corrida ao ouro negro, a cassiterita, chegando a desestabilizar a cotação mundial do estanho.
Quase cinco décadas depois, a região vive nova exploração de minerais críticos e elementos de terras‑raras, com rejeitos descartados em um cenário de manipulação ambiental, miséria humana, usurpação de terras e violência armada de milícias.
O Ministério Público Federal (MPF) em Rondônia está investigando rachaduras, ampliações estruturais não autorizadas e contaminação ambiental que ameaçam cursos d’água, sobretudo com desvios de leitos no Vale do Jamari.
Em audiência realizada na Câmara Municipal de Itapuã do Oeste, o procurador Raphael Bevilaqua determinou que a Agência Nacional de Mineração (ANM) avalie a estabilidade da Barragem Santa Cruz e implemente medidas de proteção urgentes.
Vídeos, fotos e relatos entregues ao MPF e revelados na referida audiência apontam falhas graves no controle dos efluentes; moradores relataram um vazamento ocorrido no início deste ano.
Se a estrutura ceder, o mar de lama e rejeitos pesados e tóxicos pode devastar a bacia do Rio Santa Cruz, avançando do Vale do Jamari até atingir o Rio Madeira, um dos principais afluentes do Rio Amazonas.
Um técnico ambiental especializado na proteção de barragens de garimpo, que preferiu não se identificar, revelou ao GLOBO que a poluição provocada pela Barragem Santa Cruz não se restringe a um eventual rompimento, mas ocorre de forma contínua há cerca de 40 anos, por meio do descarte diário de rejeitos de minerais de ferro e desvios de rios.
— É o maior crime ambiental da Região Norte e ninguém faz nada contra — lamentou o especialista.
— A lama despejada no Santa Cruz é arrastada até os rios Candeias e Jamari, atingindo a bacia do Madeira e deixando resíduos sólidos e metais pesados nas margens, pode ocorrer uma tragédia equivalente à de Brumadinho na Amazônia — completou.
De acordo com o relato, o impacto ambiental já afeta todo o Vale do Jamari.
A realidade atual de Bom Futuro está marcada por uma fratura social e de poder: de um lado, a concessão formal, sob controle de grupos minerários e cooperativas; de outro, frentes informais de lavra operadas por garimpeiros e pequenos posseiros locais.
No centro da engrenagem do minério está a multinacional White Solder, que compra quase toda a cassiterita de Bom Futuro das cooperativas, entre elas a Coopersanta, responsável pela Barragem Santa Cruz, e a CooperMetal.
A fundidora e outra cooperativa, a Coopertin, são rés na Justiça Federal por exploração ilegal de terras da União e lavagem de minérios de áreas protegidas.
O esquema, revelado pelo GLOBO, permite refinar o minério em altos‑fornos, obter certificados de fachada e abastecer gigantes globais de tecnologia.
À margem do maquinário pesado operam os requeiros — homens, mulheres, adolescentes e crianças que sobrevivem recuperando a cassiterita e os minérios descartados nos sulcos das escavadeiras, nas lagoas de rejeito e em poços escavados manualmente.
Submetidos a uma rotina de insalubridade e extrema pobreza, vivem em barracos de madeira e lona preta sem saneamento básico, convivendo com a malária, a dengue e o risco de soterramento.
— A vida de requeiro é uma roleta‑russa. A gente, quando vai para a serra, se for esperto, sobrevive. Você imagina uma escavadeira com uma concha daquele tamanho. O peão está embaixo. Cai terra na cabeça. E se descer uma pedra grande? Não sobra nada — relatou um garimpeiro.
Com informacoes de O GLOBO.

