PF descobre ligações entre cartel de postos de combustível no Rio e empresas vinculadas ao PCC na operação Carbono Oculto
A Polícia Federal explicou que as quadrilhas escolhem o setor de combustíveis para a lavagem de ativos devido à alta liquidez, ao intenso fluxo de dinheiro em espécie e à facilidade de simular faturamento, misturando receitas lícitas e ilícitas.
As duas investigações passaram a convergir a partir da empresa ADM OIL Prestadora de Serviços, que possui capital social de R$ 10 mil, mas movimentou R$ 45 milhões. Segundo a PF, a empresa funcionava como uma câmera de compensação, recebendo recursos de postos de gasolina e escoando os valores para pessoas físicas e jurídicas ligadas ao grupo criminoso.
Em 2020, a ADM OIL contratou Fernanda Rangel Pereira da Silva como auxiliar de escritório, pagando-lhe R$ 2 mil. Apesar do salário modesto, a PF identificou que ela realizou R$ 169,4 milhões em depósitos no sistema financeiro, direcionando recursos de origem nebulosa para a rede de postos e para a distribuidora. Por esse motivo, Fernanda foi descrita no relatório como “operadora de campo do esquema”.
Parte dos repasses milionários feitos por Fernanda Rangel foi direcionada à Tobras Distribuidora de Combustíveis Ltda., empresa que foi alvo da última operação da Carbono Oculto, investigação da PF em São Paulo que suspeita a usina de estar envolvida no esquema de lavagem de dinheiro do Primeiro Comando da Capital (PCC).
Um áudio obtido pela PF mostra conversa entre um capitão da Polícia Militar e traficantes, citando suposto acordo entre o deputado estadual eleito Marcio Canella e a facção criminosa. No mesmo áudio, a retirada de barricadas em Belford Roxo é mencionada, reforçando a ligação entre a política local e o crime organizado.
Quebra de sigilo bancário revelou que a ADM OIL repassou, mensalmente durante dois anos, R$ 70 mil à Mamim Consultoria Ltda., empresa do delegado e ex-secretário da Polícia Civil Marcus Amim e de sua esposa, totalizando mais de R$ 1,8 milhão.
A Operação Unha e Carne identificou outro ponto de interseção com a Carbono Oculto: a fintech BK Bank. A apuração apontou que Fernanda Rangel mantinha conta pessoal na fintech operando em regime de “espelhamento”, com créditos e débitos simétricos imediatos.
BK Instituição de Pagamento S.A., conhecida como BK Bank, foi citada como peça central na engrenagem financeira do PCC. A fintech atuava como braço de captação de recursos e aquisição de empresas, utilizando “contas bolsão” que reuniam valores de diferentes clientes em uma única conta, facilitando compensações internas e dificultando o rastreamento pelos sistemas anti‑lavagem. O volume de transações atípicas na instituição foi estimado em cerca de R$ 17,7 bilhões em créditos e o mesmo valor em débitos, todos vinculados a empresas do PCC. Uma parte significativa desse fluxo passou pela filial de Ribeirão Preto, que mantinha ligação direta com as atividades do grupo nas usinas sucroalcooleiras e distribuidoras de combustíveis.
Além disso, a BK Bank serviu de canal para uma rede de postos que movimentou mais de R$ 54 bilhões, mas declarou ao fisco apenas 0,17 % em tributos, índice considerado incompatível para empresas tributadas pelo lucro real.
A PF solicitou a prisão do deputado estadual eleito Marcio Canella e do ex-secretário da Polícia Civil Marcus Amim, suspeitos de integrarem organização criminosa. O advogado Thiago Minagé, defensor de Marcus Amim, preferiu não se manifestar. As tentativas de contato com Fernanda Rangel, Tobras Distribuidora e BK Bank não obtiveram resposta, e o GLOBO não conseguiu localizar a ADM OIL para comentário.
Em paralelo, a Polícia Federal apontou uso de estruturas da Defesa do Consumidor pelo crime organizado no Rio, ampliando o espectro de instituições que podem ser instrumentalizadas nas operações de lavagem de dinheiro.
Com informacoes de O GLOBO.

