Nuvem gigante de 1800 km surge e desaparece diariamente na região de Arsia Mons, em Marte
Um fenômeno atmosférico impressionante foi detectado na superfície de Marte próximo ao grande vulcão Arsia Mons, que se eleva cerca de 20 km e se estende para a região oeste do planeta.
A estrutura, denominada AMEC (Nuvem Alongada de Arsia Mons), pode alcançar até 1800 km de comprimento, embora sua largura raramente ultrapasse 200 km. Ela se forma diariamente durante a primavera e o verão do hemisfério sul marciano, iniciando antes do nascer do Sol e dissipando ao longo do dia.
Os pesquisadores que investigaram o fenômeno utilizaram dados da sonda Mars Express, da Agência Espacial Europeia (ESA), e conduziram simulações meteorológicas avançadas. Os resultados foram publicados na revista Nature Geoscience na quarta‑feira, dia 7.
Segundo o estudo, a formação da AMEC está associada à interação entre os ventos marcianos e o relevo elevado de Arsia Mons. Ao encontrar o vulcão, o ar é forçado a subir, provocando uma queda rápida de temperatura – cerca de 30 °C em aproximadamente dez minutos – que favorece a condensação do vapor de água em cristais de gelo.
O ponto central da pesquisa é a proposta de que a nuvem se forme por nucleação homogênea do gelo, um processo no qual o vapor de água gera partículas de gelo sem a necessidade de núcleos sólidos como grãos de poeira, que normalmente catalisam a formação de nuvens.
Para validar a hipótese, a equipe incorporou a física da nucleação homogênea nas simulações da atmosfera marciana, usando as observações da Mars Express como referência. Essa inclusão permitiu reproduzir a formação da AMEC nos modelos, algo que os modelos convencionais – que dependem de partículas de poeira – não conseguiam fazer.
Os autores ressaltam que as condições atmosféricas ao redor de Arsia Mons podem levar o vapor de água a níveis de supersaturação suficientemente elevados para que os cristais de gelo se formem espontaneamente. A queda acentuada de temperatura durante a ascensão do ar é um dos fatores críticos desse processo.
A nucleação homogênea já era considerada teoricamente possível em certas circunstâncias, mas sua ocorrência em ambientes atmosféricos naturais permanecia difícil de comprovar. Os resultados deste estudo reforçam a ideia de que esse mecanismo pode desempenhar um papel significativo na formação de nuvens em Marte.
Em comentário publicado na mesma edição da Nature Geoscience, a pesquisadora Milena Corcos destacou que a investigação amplia as possibilidades de estudo sobre a dinâmica atmosférica em diferentes ambientes planetários, inclusive em outros planetas.
Embora a pesquisa ofereça uma explicação plausível para o comportamento singular da nuvem de Arsia Mons, ela se baseia em observações e simulações computacionais, indicando que ainda há aspectos a serem esclarecidos sobre o fenômeno.
Com informacoes de CNN Brasil.

