Juros nos EUA podem chegar a 5%: o que isso significa para a carteira do investidor brasileiro

Por Ronaldo Batista Souza em Rio Verde, GO 20/09/2026 21:25
Juros nos EUA podem chegar a 5%: o que isso significa para a carteira do investidor brasileiro

Foto: btg-pactual/efe

Kevin Warsh, ex‑presidente do Federal Reserve (Fed), tem evitado dar orientações futuras (forward guidance) sobre a trajetória dos juros nos Estados Unidos, deixando o mercado em dúvida sobre os próximos passos da política monetária.

Em meio a essa incerteza, o Bank of America (BofA) trouxe uma perspectiva que pode assustar investidores, inclusive brasileiros. No relatório elaborado pelos estrategistas Mark Cabana e Meghan Swiber, o banco aponta que o mercado ainda subestima a disposição do Fed em elevar ainda mais a taxa de juros, sendo necessário se preparar para a possibilidade de a taxa ultrapassar os 5% ao ano.

Na última quarta‑feira (16), o Fed aumentou a taxa em 0,25 ponto percentual (pp), situando‑a na faixa entre 3,75% e 4,00% ao ano – a primeira alta desse tipo em três anos nos EUA. O relatório do BofA destaca que o mercado futuro projeta um teto para o ciclo de alta entre 4,50% e 4,75%, mas a equipe argumenta que os juros podem voltar a patamares do ciclo anterior, atingindo até 5,50%.

A tese se apoia em declarações de Kevin Warsh, que indicou que a recente alta apenas removeu uma dose de acomodação, sinalizando que a autoridade monetária ainda não considera a política restritiva suficiente para conter a inflação. Além disso, a Regra de Taylor – fórmula que calcula a taxa ideal com base no desvio da inflação e do PIB – sugere que os juros norte‑americanos deveriam estar em torno de 5,3%.

Os estrategistas do BofA ainda preveem que o rendimento (yield) dos Treasurys de dois anos deve subir para 5% ainda neste ano, impulsionando a inclinação da curva de juros. Na sexta‑feira (18), o yield desses papéis, mais sensíveis à política monetária, chegou a 4,75%.

A visão da divisão de estratégia do BofA contrasta com a do economista‑chefe para os EUA, Aditya Bhave, que prevê apenas mais duas elevações de 0,25 pp este ano – em outubro e dezembro – mantendo a taxa estável até 2027.

Quando o Fed eleva ou mantém os juros altos por mais tempo, os impactos cruzam a fronteira e atingem diretamente a carteira do investidor brasileiro por meio de três canais principais: pressão sobre o dólar e a inflação; Selic elevada por mais tempo; e atração da renda fixa norte‑americana.

Os títulos do Tesouro dos EUA são considerados os ativos mais seguros do mundo. Rendimentos mais altos em dólar atraem capital global, provocando saída de dólares dos mercados emergentes, inclusive do Brasil. Essa fuga valoriza o dólar frente ao real, encarecendo produtos importados e pressionando a inflação doméstica.

Para conter uma fuga massiva de dólares e a inflação importada, o Banco Central do Brasil precisa manter a Selic em patamares atraentes – atualmente em 13,75% – reduzindo a margem de manobra do Copom para cortes futuros. Os juros altos nos EUA diminuem a capacidade do Copom de baixar a taxa básica, prolongando o ciclo de crédito caro no país.

Com rendimentos de quase 5% ao ano, como prevê o BofA, em moeda forte nos EUA e juros elevados no Brasil, os ativos de risco perdem espaço. O Ibovespa tende a sofrer com a retirada de capital estrangeiro, encarecendo o custo de capital das empresas brasileiras e pressionando as cotações de ações e fundos imobiliários – tema que já abordamos em nossa análise sobre a inclusão de BDRs no Ibovespa em 2027.

Para o investidor local, o cenário exige cautela com papéis de renda variável de empresas endividadas e reforça a atratividade de títulos de renda fixa atrelados à inflação ou pós‑fixados.

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Ronaldo Batista Souza

Sobre o Autor: Ronaldo Batista Souza

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