Brasil vai às urnas em clima de funeral de uma era que insiste em não acabar

Por Tainá Ribeiro Alves em Rio Verde, GO 04/10/2026 23:40
Brasil vai às urnas em clima de funeral de uma era que insiste em não acabar

Foto: via Estadão

Um blog que analisa a política a partir de dados e dos sentimentos expressos nas redes destaca sinais de esgotamento do arranjo político pós‑redemocratização, indicando que o Brasil vive um momento disruptivo que desafia instituições e a sociedade.

Eleções 2026: saiba quais cargos estarão em disputa neste ano (2:16). Presidente, governadores, senadores e deputados serão escolhidos pelos eleitores; entenda o papel de cada cargo. Crédito: Estadão.

A reta final das eleições costuma concentrar atenções em pesquisas, movimentos de campanha e oscilações nas redes, mas desta vez há algo maior se impondo. A disputa de 2026 ocorre em meio a forte desgaste institucional e à sensação crescente de que o país se aproxima do fim de um ciclo. O próximo presidente assumirá justamente quando o arranjo político iniciado com a redemocratização da década de 1980 mostra sinais evidentes de esgotamento.

A história brasileira ajuda a entender esse processo. A Primeira República não acabou subitamente em 1930; o sistema dominado pelas oligarquias estaduais de São Paulo e Minas Gerais já encontrava dificuldade para representar um país que se urbanizava, diversificava sua economia e produzia novos grupos políticos. A crise de 1929 acelerou um desgaste que já vinha de antes, e o movimento liderado por Getúlio Vargas encerrou aquele período.

O mesmo ocorreu com o Estado Novo, que chegou a 1945 enfraquecido pela pressão pela redemocratização. O regime iniciado em 1946 acumulou crises políticas e institucionais até a ruptura de 1964. A ditadura militar também começou a perder sustentação muito antes de terminar, pressionada pela crise econômica, pela reorganização da sociedade civil e por uma população que voltou a exigir participação política.

Em 1985 começou o ciclo em que ainda vivemos, consolidado três anos depois pela nova Constituição. Desde então, foram quatro décadas de eleições, alternâncias de poder, ampliação de direitos e capacidade de atravessar crises profundas dentro da ordem constitucional. Só que o Brasil que construiu esse sistema praticamente desapareceu.

Essas percepções apareceram em conversa recente com o sociólogo, cientista político e escritor João Gualberto Vasconcellos, que ressalta que os grandes ciclos políticos começam a se desgastar quando suas instituições perdem capacidade de responder a uma sociedade que já mudou, e que o País de hoje está claramente nesse movimento.

Em 1985 não havia internet comercial, redes sociais ou smartphones. A comunicação era intermediada por poucos veículos, enquanto partidos, sindicatos e organizações sociais funcionavam como pontes entre o cidadão e o poder. A tecnologia desmontou grande parte dessa lógica.

Hoje milhões de pessoas participam diretamente da discussão pública, contestam autoridades e julgam diariamente as instituições numa velocidade que o próprio Estado tem dificuldade de acompanhar, além de pautar e direcionar posições políticas.

Chegamos a 2026 com instituições funcionando, mas com uma parte importante da sociedade desconfiando de quem as ocupa e da forma como operam. O Supremo Tribunal Federal tornou‑se o símbolo mais evidente dessa mudança; seus ministros, antes distantes do cotidiano da maioria dos brasileiros, passaram a protagonizar permanentemente o debate político e, para uma parcela da população, deixaram de ser vistos apenas como árbitros para serem percebidos também como participantes das disputas e representantes de interesses pouco republicanos.

O cancelamento do último debate da Globo, na quinta‑feira (01), exemplifica esse ambiente de deterioração institucional. Decisões do Tribunal Superior Eleitoral e do STF alteraram regras previamente acordadas pela emissora com os partidos e interferiram diretamente no formato do programa. O episódio reforçou a sensação de que as fronteiras entre arbitragem institucional e disputa eleitoral estão cada vez mais difíceis de distinguir.

Essa sensação se mistura a outra, ainda mais corrosiva, de que o Estado não trata todos da mesma maneira. Fraudes como as ocorridas no INSS, denúncias de corrupção, privilégios, salários de autoridades muito distantes da realidade da população e investigações que alcançam pessoas próximas aos centros de poder vão se acumulando dentro de uma mesma percepção.

Para o cidadão, o que permanece é a ideia de que existem portas, corredores e salões da República pelos quais alguns conseguem circular com uma facilidade que não existe para quem apenas trabalha, paga impostos e depende dos serviços públicos.

É nesse contexto que ocorre a disputa à Presidência. Quem ganhar vai enfrentar um desgaste que começou muito antes de sua posse, porque receberá uma sociedade impaciente com instituições. Como afirma Gualberto, há uma sensação de que o passado não quer passar e está a impedir o presente e também o futuro. Mas o porvir sempre se impõe, embora em momentos de transição seja difícil prever o que acontecerá.

Com informacoes de Estadão.

Tainá Ribeiro Alves

Sobre o Autor: Tainá Ribeiro Alves

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