Inadimplência bancária sobe para 5% e sinaliza crise no crédito brasileiro
O mercado de crédito bancário brasileiro apresenta deterioração acentuada, impulsionada por elevada inadimplência e pela continuidade de uma tendência de juros altos, segundo análise que considera os últimos 12 meses até agosto, período escolhido para atenuar o impacto das mudanças na apuração das estatísticas de inadimplência bancária implementadas em janeiro de 2025.
A iniciativa do Conselho Monetário Nacional (CMN) visou alinhar práticas ao padrão mundial e reforçar a solidez do Sistema Financeiro Nacional, porém, muitas operações inadimplentes permanecem por mais tempo nas carteiras de crédito antes de serem baixadas a prejuízo.
No conjunto, a inadimplência bancária – definida como atraso superior a 90 dias – saltou de 4,1% para 5,0% em um ano, sem diferença significativa entre crédito direcionado (com taxas de juros reguladas direta ou indiretamente) e crédito livre (com taxas de mercado).
Ao comparar pessoas físicas (PF) e pessoas jurídicas (PJ), observa‑se maior pressão sobre a PF, cuja inadimplência aumentou 1,1 ponto percentual, atingindo 6,0%, enquanto a PJ registrou alta de 0,5 ponto percentual, chegando a 3,0%, apesar dos programas de renegociação de dívida promovidos pelo governo.
Estudo conduzido por Rodrigo Leite, Layla Mendes e Pedro Soares demonstra que a redução da inadimplência entre beneficiários do programa Desenrola 2023 foi temporária, beneficiando sobretudo indivíduos com emprego formal. Trabalhadores informais permaneceram com taxas elevadas, e a pesquisa indica que a medida pode ter criado incentivos para novos endividamentos ao gerar expectativa de futuros socorros governamentais – fenômeno conhecido como “risco moral”.
A inadimplência reage de forma defasada, aproximadamente em seis meses, às variações das taxas de juros de mercado e da Taxa Selic do Banco Central. Por esse motivo, a reversão da tendência de alta deve demorar alguns meses, sendo provável que o recuo seja lento e modesto, dadas as restrições para a queda dos juros no atual cenário de fragilidade fiscal.
Outros indicadores reforçam a perspectiva negativa: o atraso no pagamento entre 15 e 90 dias cresceu 0,6 ponto percentual na PF, e a qualidade do crédito para pessoas físicas permanece baixa, associada a situações de estresse financeiro.
O uso do cartão de crédito rotativo aumentou 25% em um ano, embora o risco de inadimplência nessa linha atinja 66% atualmente. Na esfera da pessoa física, destaca‑se ainda a alta inadimplência do novo crédito consignado privado, cuja linha governamental “Crédito do Trabalhador” – descontado em folha – registrou crescimento médio anual de 151%, elevando a inadimplência para 10,6%, quase dobrando em um ano.
No segmento de pessoas jurídicas, o quadro apresenta ligeira melhora. As empresas têm recorrido à linha de capital de giro de até 365 dias, responsável por dois terços do aumento do crédito livre. Contudo, o crédito rotativo cresceu 68% e a inadimplência segue em alta.
A lenta evolução da renda das famílias – cerca de 2,5% real ao ano – e do faturamento das empresas pode dificultar a recuperação do mercado de crédito, em um contexto de endividamento elevado. A dívida bancária total em atraso da pessoa física representa quase 6% da renda anual, segundo cálculos da pesquisa.
Com informacoes de O GLOBO.

