Fim da escala 6×1 pode elevar custos do varejo em até 22%: quem arcará com o peso?
O varejo brasileiro vive um período de forte pressão, e a causa não se resume apenas aos juros elevados; a mudança de comportamento do consumidor, resultados eleitorais, a Reforma Tributária e, agora, a proposta de fim da escala 6×1, são fatores que se somam ao cenário.
Em 2 de setembro, a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado aprovou a proposta de emenda à Constituição (PEC 221/2019) que elimina a escala 6×1 – seis dias de trabalho e um de descanso – reduzindo a jornada máxima semanal de 44 para 40 horas, com dois dias de descanso remunerados e jornadas de até 8 horas diárias, permitindo compensação de horários e redução por acordo ou convenção coletiva. O presidente do Senado, Davi Alcolumbre, marcou para 6 de setembro a análise em Plenário da PEC. Caso seja aprovada, a mudança será implementada de forma progressiva, com exceções para regimes diferenciados.
Cláudio Felisoni, professor da FIA Business School, aponta que a redução das horas trabalhadas, sem compensações que mantenham a produtividade, pode gerar uma queda de cerca de 5 pontos percentuais na geração de riqueza do varejo, o que equivale a aproximadamente 0,32 ponto percentual de redução do PIB, segundo estudo da instituição.
Jorge Gonçalves Filho, presidente do Instituto de Desenvolvimento do Varejo (IDV), complementa que manter o mesmo nível de atendimento exigiria um aumento de aproximadamente 10% na despesa com pessoal. A transição de 6×1 para 5×2 elevaria os custos em torno de 12% a 13%. Somadas, as duas alterações podem representar um aumento de aproximadamente 20% a 22% nas despesas do varejo.
Felisoni indica dois caminhos para mitigar os impactos. O primeiro seria a compensação por tecnologia, embora o efeito não seja imediato devido ao tempo necessário para adoção e ao ambiente de juros desfavorável. O segundo seria o aumento do número de funcionários, mas isso também eleva os custos operacionais. “Existe possibilidade? Sim, existe possibilidade. Mas essas possibilidades vão impactar a estrutura de custos das empresas. E essas estruturas de custos são muito mais frágeis, obviamente, para as pequenas empresas. Nos segmentos onde a participação das pequenas empresas é maior é exatamente onde as dificuldades serão muito mais sentidas”, afirma Felisoni.
Gonçalves Filho sugere ainda ajustes nos horários e dias de funcionamento, inclusive o possível fechamento de estabelecimentos aos domingos. Ele cita os shoppings, que normalmente operam das 10h às 22h, como exemplo de local que poderia rever seu horário caso os custos adicionais não sejam absorvidos.
Segundo Gonçalves Filho, a folha de pagamento representa cerca de 13,5% a 14% das despesas do varejo. Um aumento de 20% nessa despesa resultaria em um impacto de aproximadamente 2,6% sobre o total das despesas. Como a margem líquida do varejo gira em torno de 2%, parte desse aumento precisaria ser repassada aos preços, transferindo parte do sofrimento para o bolso do consumidor.
O período de transição total está estimado em 1 ano e 2 meses (14 meses). “Os países que tiveram redução de jornada de trabalho fizeram isso num tempo de oito, 10, 12 anos, tirando um pouco de minutos por ano. Nós estamos querendo fazer isso em 14 meses. Não vai. Não vai conseguir distribuir o impacto. Isso vai para a inflação. Não tem país no mundo que fez isso no espaço de tempo que se quer fazer aqui”, alerta Felisoni, ressaltando que o tema merece debate amplo e transparência quanto aos impactos.
Em setores intensivos em mão de obra, como o vestuário, os impactos podem superar 6% na geração de riqueza, reforçando que os efeitos variam conforme a participação da mão de obra em cada segmento. Como já apontamos em nossa cobertura sobre a carteira de FIIs recomendada para o varejo pelo Daycoval, a sensibilidade do setor a custos operacionais é um ponto crítico que pode reverberar nos resultados financeiros das empresas.
Com informacoes de Money Times.

