EUA exigem que Brasil garanta participação de dissidentes políticos nas eleições de 2026
Durante negociações diplomáticas sigilosas ocorridas após a imposição de um tarifaço de 50% pelos Estados Unidos, o governo de Donald Trump enviou ao Brasil um documento contendo 21 demandas, entre elas a exigência de que "dissidentes políticos" não fossem detidos, presos ou impedidos arbitrariamente de participar das eleições presidenciais de 2026.
O texto, obtido pelo Estadão, foi remetido em outubro de 2025 aos negociadores brasileiros e mantido em segredo até sua divulgação. Nele, o governo americano afirma que o Brasil deve se comprometer a realizar eleições "livres e justas" e a não restringir a participação de opositores políticos.
Para autoridades brasileiras consultadas, a exigência visava especificamente a participação do ex‑presidente Jair Bolsonaro, condenado em 2024 pelo Supremo Tribunal Federal a 27 anos e três meses de prisão por tentativa de golpe. Apesar da condenação, Bolsonaro e sua família mantiveram viva, por alguns meses, a ideia de uma pré‑candidatura. O ex‑mandatário já estava inelegível até 2030 por abuso de poder político, decisão do Tribunal Superior Eleitoral de 2023.
O senador Flávio Bolsonaro (PL) revelou publicamente, em 5 de dezembro, que havia sido indicado pelo pai como herdeiro político e pré‑candidato do bolsonarismo à presidência.
O Itamaraty não se pronunciou oficialmente sobre o teor da proposta, e o Departamento de Estado e o Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR) não responderam aos pedidos de esclarecimento da reportagem.
Em declaração feita a uma emissora na Flórida, o embaixador americano designado por Trump, Daniel Perez, ainda não aprovado por Lula, afirmou que a decisão sobre as eleições cabe aos brasileiros e que trabalhará com quem for eleito.
O governo de Luiz Inácio Lula da Silva acusou o governo Trump de ingerência indevida, violação da soberania e de tentar interferir no processo eleitoral brasileiro, apontando ainda outras ações americanas como o tarifaço, a classificação de facções como terroristas, sanções a autoridades, envio de representantes e a cassação de vistos diplomáticos.
O documento foi apresentado em 16 de outubro de 2025 a uma missão brasileira enviada a Washington, liderada pelo ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, acompanhada por dois negociadores e quatro assessores. Dois membros da equipe receberam a proposta por e‑mail, com a intenção de gerar debate interno antes de levar a questão ao nível ministerial.
Segundo diplomatas brasileiros que falaram sob anonimato, a proposta foi analisada por Vieira e sua equipe na manhã de 16 de outubro, na residência oficial da embaixada brasileira em Washington, enquanto se preparavam para uma rodada de negociações de alto nível. Vieira teria comunicado que o documento era "inaceitável" e solicitado que não fosse apresentado nas reuniões formais daquele dia, pedido que foi atendido.
Em encontros subsequentes, Vieira conversou de forma reservada com o secretário de Estado americano, Marco Rubio, e participou de reunião ampliada com Jamieson Greer, representante comercial dos EUA, além de integrantes do Departamento de Estado e da Casa Branca, ocorridos no Edifício E.
Em declaração sob reserva no mês anterior, uma alta autoridade do Departamento de Estado afirmou que os EUA respeitariam o resultado das urnas brasileiras, desde que a disputa fosse "livre e justa", e ressaltou que já haviam trabalhado com governos de "ambos os lados do espectro" no Brasil, com resultados "muito bem‑sucedidos".
Com informacoes de Estadão.

