Entenda a antropomorfização da inteligência artificial e seus impactos
Conversar com assistentes virtuais como se fossem pessoas tem se tornado rotina, e o fenômeno recebe o nome de antropomorfização da IA – a tendência de projetar sentimentos, intenções e capacidades humanas em tecnologias que não são seres vivos.
De acordo com Anderson R\u00f6he, advogado especializado em Direito Digital e membro das comiss\u00f5es de IA, Tecnologia e Inova\u00e7\u00e3o da OAB SP, a antropomorfiza\u00e7\u00e3o corresponde ao \"fen\u00f4meno pelo qual se atribuem sentimentos, emo\u00e7\u00f5es, comportamentos e\/ou estados mentais correlatos aos humanos a um ser ou alguma coisa que n\u00e3o \u00e9 humana, sendo an\u00e1logos, semelhantes, mas ainda n\u00e3o no patamar humano\".
Ali Hasan, professor da Universidade de Iowa, amplia a ideia ao afirmar que o processo pode envolver a proje\u00e7\u00e3o de atributos corporais, afetivos, racionais e cognitivos nos sistemas artificiais, refletindo a maneira como o ser humano interpreta e se relaciona com a tecnologia.
A pr\u00e1tica n\u00e3o surgiu com o ChatGPT. J\u00e1 em 1965, o cientista da computa\u00e7\u00e3o Joseph Weizenbaum desenvolveu a ELIZA, um dos primeiros programas capazes de simular uma conversa. Apesar da simplicidade da estrutura, usu\u00e1rios passaram a tratar a ELIZA como se fosse um terapeuta, atribuindo-lhe compreens\u00e3o al\u00e9m de suas reais capacidades.
Nos anos 1980, o pesquisador Drew McDermott criticou essa linguagem metaf\u00f3rica ao cunhar o termo \"mnem\u00f4nicos de desejo\" (wishful mnemonics) para descrever express\u00f5es que refletem mais as expectativas dos pesquisadores do que as reais fun\u00e7\u00f5es das m\u00e1quinas.
O uso de termos como \"aprender\", \"mem\u00f3ria\", \"vis\u00e3o\", \"entender\" e \"pensar\" facilita a comunica\u00e7\u00e3o de conceitos t\u00e9cnicos ao p\u00fablico, mas tamb\u00e9m alimenta a impress\u00e3o de que os computadores realizam essas atividades da mesma forma que humanos, como observa a pesquisadora Dora Kaufman, da \u00e1rea de tecnologia e IA.
Al\u00e9m da linguagem, o design dos pr\u00f3prios sistemas incorpora elementos que simulam a comunica\u00e7\u00e3o humana, aumentando a sensa\u00e7\u00e3o de proximidade psicol\u00f3gica, a confian\u00e7a do usu\u00e1rio e incentivando intera\u00e7\u00f5es mais longas e frequentes.
Anderson R\u00f6he aponta que a antropomorfiza\u00e7\u00e3o pode ser conveniente para quem prefere intera\u00e7\u00f5es com m\u00e1quinas a rela\u00e7\u00f5es humanas complexas, j\u00e1 que os assistentes s\u00e3o programados para responder de forma agrad\u00e1vel e manter a fluidez da conversa. Ele acrescenta: \"Em vez de ter intimidade, estabelecer conex\u00f5es reais e intera\u00e7\u00f5es sociais humanas complexas, podendo em algum momento ser confrontado por cren\u00e7as ou convic\u00e7\u00f5es, o usu\u00e1rio pode optar por substituir o contato humano por m\u00e1quinas desenhadas para sempre agradar\".
O especialista alerta ainda que sistemas capazes de conversas naturais podem gerar uma ilusa\u00e7\u00e3o de humanidade. \"Quando se dizem aut\u00f4nomas, inteligentes e avan\u00e7adas a ponto de interagir e manter a fluidez de um sistema conversacional, cria\u2011se a falsa sensa\u00e7\u00e3o de que se trata de um ser consciente\", conclui R\u00f6he.
Como j\u00e1 destacamos em nossa cobertura sobre o ritmo acelerado da intelig\u00eancia artificial e seus riscos regulat\u00f3rios, a antropomorfiza\u00e7\u00e3o acrescenta mais uma camada de complexidade ao debate sobre como lidar com tecnologias que se aproximam cada vez mais do comportamento humano.
Com informacoes de Canaltech.

