Dilma Rousseff detalha expansão do NDB e o papel dos BRICS na construção da multipolaridade financeira
Em entrevista exclusiva, a ex‑presidenta do Brasil, Dilma Rousseff, apresentou uma visão abrangente sobre a trajetória e os planos futuros do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), também conhecido como Banco dos BRICS, ressaltando seu papel na redefinição da arquitetura financeira global.
Rousseff enfatizou que a multipolaridade deve ser entendida como um conceito multilateral, multicultural e multidiverso, alertando que manter o atual estágio de desenvolvimento da humanidade sob modelos unilaterais e hegemônicos, nos quais um único centro impõe regras, cultura e visão de mundo, é extremamente difícil.
O banco foi criado em 2014, durante a Cúpula de Fortaleza, sob a gestão de Dilma, como resposta direta às assimetrias históricas dos organismos de Bretton Woods, como o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial. Segundo a mandatária do NDB, a diferença central reside na preservação inegociável da soberania nacional dos países membros.
O modelo do NDB, descrito como "demand‑driven", não impõe prescrições de austeridade, desregulamentação ou exigências de privatização de patrimônio público como condição para a concessão de empréstimos. A atuação do banco é moldada a partir das prioridades definidas pelos próprios governos soberanos, oferecendo financiamentos com prazos alargados de 10, 20 a 30 anos e custos altamente competitivos, o que o torna adequado para projetos de grande porte que o capital privado e os bancos tradicionais relutam em financiar.
“A nossa missão não é dizer ao país o que ele deve fazer, porque quem está de fora raramente compreende a complexidade da realidade local. Nossa função é apoiar o projeto de desenvolvimento que a própria nação desenhou para si”, afirmou Rousseff.
Um dos pontos centrais da entrevista foi a discussão sobre o papel do dólar nas finanças internacionais. A ex‑presidenta desmistificou a ideia de uma "desdolarização" imediata, explicando que o NDB atua na prática para mitigar as distorções provocadas pela dependência de uma única moeda de reserva. Segundo ela, o regime de moeda hegemônica gera dois efeitos perversos: por um lado, impõe aos Estados Unidos déficits crônicos em conta corrente e contribui para a desindustrialização; por outro, transfere aos países emergentes o fardo das oscilações da política monetária norte‑americana, encarecendo dívidas e desestabilizando balanços soberanos.
Como resposta estratégica, o NDB institucionaliza empréstimos em moedas locais. Quando um país ou empresa toma empréstimo em sua própria moeda ou em moedas de parceiros comerciais, o serviço da dívida acompanha a receita real, neutralizando choques externos. O banco também se consolidou como o maior emissor privado de títulos em moeda chinesa fora da China continental, conhecido como Panda Bonds, e combina operações em renminbi, euro e dólar para reduzir custos e diversificar riscos.
“Um sistema financeiro multilateral baseado em moedas locais é intrinsecamente mais seguro, equilibrado e estável para a economia internacional”, resumiu Rousseff.
Inicialmente, o NDB foi formado pelos cinco países fundadores – Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. Sob a presidência de Dilma, o banco acelerou sua expansão, passando de cinco para vinte membros. A última rodada de adesões incluiu o Emirado Árabe Unido, ampliando ainda mais a representatividade do Sul Global na governança financeira internacional.
Com informacoes de Brasil 247.

